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Você é prisioneiro do seu passado?

Jessica sentou-se em silêncio. O psicólogo sentou-se ao lado dela, permitindo que o silêncio perdurasse por alguns instantes, enquanto o ruído do corredor agitado do hospital continuava. Ela havia sido internada 24 horas antes, após uma overdose de antidepressivos. Fisicamente, estava bem, o efeito das pílulas tinha desaparecido – mas ainda se sentia exausta. Também estava envergonhada, irritada consigo mesma, desejando não ter feito aquilo. Sentia-se muito triste e sozinha.
Ao responder por que tomara os comprimidos, Jessica disse que realmente não sabia: estava desesperada, achou que tinha de fazer algo e não conseguiu pensar em outra coisa. Não imaginou que fosse morrer – na verdade, nem queria morrer. Foi mais uma vontade de fugir por um tempo, como uma criança que cobre a cabeça com o cobertor para brincar de se esconder, fazendo o mundo sumir por um instante.
A vida tornara-se complicada demais. Muitas pessoas dependiam dela e ela achava que havia decepcionado todas. “Talvez, se eu desaparecer, a vida de todo mundo fique melhor”, pensou Jessica. A vida de Jessica havia sido razoavelmente normal até alguns meses antes, quando foi vitima de um assalto a mão armada. Ninguém se feriu no assalto, mas as cicatrizes de Jessica estavam em sua mente, não em seu corpo. Ela revivia o acontecido repetidas vezes. E se ele ficasse nervoso e atirasse em mim?(O que não aconteceu). E se ele tivesse batido com o carro enquanto corria para fugir comigo dentro do carro? (O que também não aconteceu). E pior, se ele houvesse me molestado? (Nada disso ocorreu).
A mente de Jessica vinha criando cenários imaginários que se tornaram cruéis. Por mais que tentasse, não conseguia expulsar os pensamentos, via-se cada vez mais concentrada neles do que na vida real. Por fim Jessica havia acumulado sentimentos em um estado mental que podia ser descrito como sofrimento mental prolongado: Jessica alternava entre o vazio e o desespero, o tumulto e a confusão. Agora pensava menos no acontecimento e mais na dor.
Sofrimento mental: os pensamentos que não param de girar e girar…
• Não há nada que eu possa fazer
• Estou desmoronando
• Não tenho futuro
• Estou completamente derrotado
• Perdi algo que jamais encontrarei de novo
• Sou inútil
• Já não sou mais a mesma pessoa
• Sou um fardo para os outros
• Algo em minha vida se quebrou para sempre
• Não consigo achar sentido na vida
• Estou completamente impotente
• Essa dor jamais irá embora
A história de Jessica ilustra alguns dos estados mentais que podem nos aprisionar,de formas muito sutis, achamos que não podemos nos perdoar por coisas que fizemos ou deixamos de fazer. Carregando conosco o peso de fracassos passados, negócios inacabados, dificuldades de relacionamento, brigas não resolvidas, ambições não satisfeitas, etc. Pode nem ser um evento tão traumático como o de Jessica, mas a experiência dela revela aspectos comuns a todos nós: a dificuldade de abandonar o passado, a mania de remoer coisas que aconteceram ou o habito da preocupação. Quando a mente entra nesses padrões e não consegue abandoná-los, os pensamentos se descontrolam. Por mais que você tente, não consegue desligar a mente dos próprios fantasmas – esse estado tem sido chamado de “engajamento doloroso”. Na verdade, em períodos assim, pode parecer que, se você se permitir voltar a ser feliz, estará traindo uma pessoa ou um princípio.

Não é difícil perceber por que qualquer um de nós poderia se sentir culpado a maior parte do tempo. A cultura ocidental se desenvolveu com base na culpa e na vergonha. Podemos nos sentir culpados por não conseguir enfrentar determinadas situações, por não atingir nosso potencial, por não ser o melhor pai/mãe/esposa/marido/namorada do mundo.
Podemos sentir vergonha por não corresponder às expectativas dos outros, por sentir raiva, amargura, ciúme, tristeza e desespero. Culpados por curtir a vida. Culpados por estar felizes…
E a base para grande parte da culpa e vergonha é o medo – o tirano interno que todos carregamos na cabeça: medo de não sermos amados, medo do abandono, medo de não sermos bons o suficiente. Medo se sermos atacados se baixarmos a guarda, de fazer besteira se relaxarmos. E se tememos a crítica dos outros, por que não evitamos o risco e nos atacamos primeiro? Um medo que leva a outro, que alimenta mais outro, num ciclo debilitante e incessante que esgota nossa energia.
Você precisa ir um passo adiante, libertar-se das amarras do medo, para não apenas obter a paz profunda, e também sustentá-la à luz das tensões que a vida lança em seu caminho. Precisa se relacionar com o mundo com gentileza e compaixão, e só conseguirá fazê-lo compreendendo quem você é, aceitando-se com profundo respeito, reverência e, principalmente, amor.
Desejo, além de um fim de ano iluminado,
Paz e Amor além do entendimento
Para você e aqueles que você, realmente, gosta muito.
Luisa Araujo

Fontes:Full Catastrophe Living (Revised Edition): Using the Wisdom of Your Body and Mind to Face Stress, Pain, and Illness.Mindfulness. Mark Williams e Danny Penman.

22 de dezembro de 2015

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